Casa de pneusTécnica de reutilização de materiais constrói casas mais baratas, seguras e ecologicamente corretas. Elas usam material que iria para o lixo, como pneus velhos.

De uns anos para cá, o mundo ganhou uma consciência ambiental nunca vista. Reciclar, reutilizar e reaproveitar são conceitos fundamentais, mas nem sempre é fácil. Esse é o tema da coluna de ciência e tecnologia do Bom Dia, “Você não sabia, mas já existe”.

Nesta quarta-feira (31), a coluna trata do desperdício, ou melhor, como reaproveitar materiais e economizar. O repórter Márcio Gomes está em um canteiro de obras no Rio de Janeiro, para ambientar a reportagem gravada no interior de Goiás. Lá ele conheceu uma técnica de reulização de materiais na construção de casas, mais baratas, seguras e ecologicamente corretas. São casas que usam material que iria para o lixo, como pneus velhos.

Assim, o Brasil construiu um desafio ambiental. O que fazer com os cerca de 40 milhões de pneus que são abandonados todo ano?

Por isso, o Bom Dia foi até Goiatuba, cidade a 170 quilômetros de Goiânia, para ver de perto um projeto que parece mentira.

O trabalho começou em 2003, e agora ele crê que atingiu o máximo da possibilidade de reaproveitamento: a construção de casas.

Tudo começa na separação da borracha e do aço do pneu, partes importantes para montar o alicerce, o início de qualquer projeto.

Pneus de trator e de caminhonete foram fixados ao solo com uma estrutura de aço. Tiras de borracha foram enroladas, formando bobinas. Elas enchem toda a base, junto com treliças de ferro.

Que ninguém se assuste, mas para preencher os espaços vazios é usada uma mistura de cimento e lixo. Tem vidro, plástico, papelão e entulho de obra, que normalmente também termina nos lixões.

O entulho de construção moído já tem areia, brita, cascalho e tem argamassa. Então, aqui foi desenvolvida a forma que funde ela de uma vez, acrescentando uma quantidade de cimento, explica José Neto. E onde está a economia? Em vez de você comprar areia, cascalho, brita, isso tudo, você já está utilizando do lixo que é jogado fora.

Em uma betoneira, todo material vira uma massa ecologicamente correta, que é moldada em formas de metal. Pilares de mais de três metros de altura foram erguidos, vários alicerces montados.

Mas José Neto não queria apenas o alicerce ou mesmo algumas pilastras da casa feitas de lixo e pneu velho, ele queria mais. Por isso, ele decidiu construir, e está quase pronto, um hotel, todo feito de material reciclado. O nome vai ser Pneus Hotel: isso é ecologia, aposta.

Serão 28 quartos. Tudo o que se vê é material reaproveitado. Esse teto aqui foi um forro que eu fiz. Dentro do pneu, foi colocado sucata de isopor, garrafa PET. Para eu fazer o travamento, utilizamos corrente de moto, conta.

Mas será que é realmente seguro um teto ser feito com material que ia ser jogado no lixo?

Tanta confiança também tem um fundo científico. Desde maio, o laboratório da Pontifícia Universidade Católica de Goiás está avaliando o que foi criado em Goiatuba.

A casa construída com esse material reciclado Fica mais barata pelos cálculos que já foi feito. Ela é 40% mais barata do que uma casa convencional”, diz José Dafico Alves.

E pensar que um projeto como esse nasceu da cabeça de um homem que estudou até a 5ª série. Zé Neto não tem vergonha da origem humilde ou do pouco estudo. O que ele não perdoa é a desconfiança.

“Tem dia que, para falar a verdade, eu senti que eu ia bater o escanteio, correr para cabecear para tentar fazer o gol. A realidade é essa. Eu estava jogando sozinho”, comenta o empresário. “Quando o nosso pessoal descobrir o valor que tem esse tipo de lixo, pode ter certeza que muitos vão querer ter a sua moradia em cima desse tipo de lixo. Lixo que eu falo entre aspas, porque pra mim virou um excelente negócio”.

Em uma pequena laje de 80 metros quadrados, são utilizados até 600 pneus, com essa técnica de Goiatuba. Além disso, o empresário José Neto faz questão de frisar que todos os pneus que estão aguardando a hora de serem reutilizados, seja para a recauchutagem ou para a utilização na construção de casas, recebem um tratamento contra a dengue para evitar a proliferação do mosquito.

Durante a reportagem, o repórter Márcio Gomes utilizou uma camisa feita de garrafa PET. Ela é toda moída e vira fibra para tecido. O sapato é feito de couro vegetal e de lona de caminhão. Fonte: Editorial Globo/www.novaconsciencia.com.br

Equipe Fenatracoop