Uma das grandes potencialidades do ser humano é a criticidade. Criticidade deriva do grego e significa “discernir, interpretar, julgar, distinguir entre verdade e erro”. A criticidade mora na medula do ser humano. Sem criticidade, o ser humano é “compacto”, como diz e. Bloch. E deixa de ser “espaço à vida aberta”. Sem criticidade, o ser humano perde a respiração racional, embota a inteligência.

A criticidade manifesta-se de várias formas. A criticidade óptica atua pelo olhar. Uma das maravilhas humanas é o olhar crítico. O olhar crítico desvenda as entranhas da realidade. Capta a intimidade, dedilha nervuras. Olhar crítico não só registra o que aparece, mas sobretudo garimpa o que se esconde. O olhar crítico não se detém na configuração dos fatos, mas esmiúça-lhes as motivações. Descobre o sutil. Sabe lidar com ciladas. Debulha a espiga capciosa. O olhar crítico desfia urdiduras para destrançar trapaças. Desaponta os que escorregam sob a penumbra. Surpreende os astutos.

A criticidade hermenêutica é o conhecimento interpretativo, é a compreensão que vai além do simples olhar. Há olhar embasbacado. Mas não basta ver fatos e procedimentos. Importa extrair deles  o significado real, as motivações ocultas. Os mesmos fatos podem abrigar razões diferentes. Alguém comparece a garante que vai resolver os problemas da sociedade. Mas qual é o verdadeiro sentido dessa promessa: É aí que se situa a criticidade. Ver e ouvir estão ao alcance de quase todos. Mas é preciso avaliar o que está escondido naquele ver e ouvir. Paul Ricoeur diz que interpretar é decifrar o sentido oculto no sentido aparente. A sociedade seria muito diferente se praticasse a criticidade hermenêutica, se fosse além das rotulagens que embrulham a população. Não basta ver o acontecimento. O principal é descobrir o que está por trás do acontecimento.

A criticidade kairológica fundamenta a opção. É indispensável que o senso crítico embase  solidamente a decisão humana. Perante determinados cenários, as pessoas são provocadas a aderir ou a rejeitar, a concordar ou a discordar. Decidir é definir-se existencial, social e historicamente. Escolher exige apurada criticidade. Muitos aderem a proposta sem avaliação crítica. E empenham apoio em projetos que irão prejudicar a sociedade. Avalizam ingenuamente ou maliciosamente propostas que depois se mostrarão nocivas. A falta de decisão crítica tem legitimado ditaduras políticas, economias selvagens, práticas corruptas e calamidades sociais.

A criticidade praxiológica estimula e orienta o agir humano. Há ações que constroem e ações que destroem. Há atividades que promovem a vida e atividades que a devastam. A criticidade suscita atitudes que amadurecem pessoas e sociedades. É aliada da autonomia humana. O filósofo Gadamer propõe a “Criticidade emancipatória”, que leva o ser humano a tornar-se agente de emancipação individual e coletiva. A criticidade tem paixão pela verdade e pela liberdade. Não quer o ser humano cego nem escravo. Mas lúcido e autônomo.

Referência

ARDUINI, Juvenal – Antropologia: ousar para reinventar a humanidade – São Paulo: Editora Paulus, 2002.